Lançamento de romances e ensaios abordando feridas históricas, psicanálise, memória e pensamento filosófico; destaque para ‘A Península das Casas Vazias’ sobre o impacto da Guerra Civil na desintegração familiar e social.
Pensar na ferida que ainda dói - Expresso Likely publishing date: 2026-04-10
Pensar na ferida que ainda dói
“Eis, pois, a história da decomposição total de uma família, da desumanização de uma vila, da desintegração de um território e de uma península de casas vazias.” Assim descreve o autor, num curto prólogo que contrasta com a imensidade do livro, o que nos aguarda se continuarmos a ler. Não é desajustado. O romance aspira à totalidade e concretiza-a: a família, a vila, o país. Foi em 2024 queDavid Uclésescreveu“A Península das Casas Vazias”, agora editado pela D. Quixote e traduzido por J. Teixeira de Aguilar. São quase 700 páginas que contam o modo como aGuerra Civilfoi vivida em todo o território, sobretudo naquele onde a guerra se impôs. O fio condutor é a família de Uclés, andaluza de Quesada – ele nasceu em Úbeda, a uma hora da casa de García Lorca – e a saga que se lhe seguiu, a forma como aquele período deformou e desagregou as vidas de quem o atravessou.
O autor, de 36 anos, demorou 17 a escrever o livro, impondo-se pelo menos oito reescritas à medida que as editoras o iam sucessivamente rejeitando. Até que, a dada altura, decidiu estudar a Guerra Civil, e teve a epifania de o texto ser por ela perpassado. Afinal, passava-se nos anos 1930 e não havia personagem – membro do clã - que não a tivesse sofrido ou nela sucumbido. O retrato é também sociológico, na medida em que David Uclés nos dá a investigação que levou a cabo, os costumes andaluzes, as superstições, o preço da comida, o tamanho e a configuração das casas, os cartazes que se viam, os nomes que se usavam.E dá-nos também o que ele próprio designa de realismo mágico, menos ao estilo de García Márquez do que ao de Günther Grass,Salman Rushdieou Olga Tokarczuk.“O realismo mágico precisa que o leitor reconheça uma ferida que ainda lhe dói”, disse ele ao Expresso.Será essa ferida que leva alguém a fazer psicanálise? A pergunta é colocada indiretamente porVera Iaconelli,psicanalista, no livro“Análise - Notas do Divã”, lançado pela Companhia das Letras. O que leva alguém até lá? Que tipo de inquietação, de dor, de irresolução, de tristeza? Se cair no divã é mais ou menos fácil, reconhecer que se precisa de ajuda é um processo “bem mais custoso de descrever”. E uma só história pode ter infinitas versões até para nós próprios, mestres em esconder uma memória atrás ou dentro da outra, como matrioskas.
“A lembrança dos seis filhos é uma das mais preciosas memórias da minha vida, congelada numa cena em que estamos todos de banho tomado e de pijama, amontoados no sofá da sala, brincando de fazer sombras à luz das velas. (…) Tudo é perfeito nessa lembrança, tudo é contagioso e melancólico. As interpretações que fiz dela equivalem a décadas de choro e ranger de dentes sobre o divã”, escrevea autora, também colunista na “Folha de São Paulo” - a sua cidade -, sobre o seu próprio processo terapêutico. O volume é um achado de delicadeza na tentativa, conseguida,de contar como é ser-se ouvido quando se aprendeu a ouvir, numa análise do ato de análise que evidencia as brutais contradições de que somos feitos.Outro ato de olhar ‘para dentro’ é o livro“A Última Lição de Álvaro Siza Vieira”, uma longa conversa do arquiteto de 93 anos com a jornalista e escritoraPatrícia Reis, editada pela Contraponto. Éelaquem nos introduz num projeto que oSizaterá aceitado “por gentileza”, porque o que quer é trabalhar e aproveitar o tempo que ainda tem. “E foram vários sábados de conversas lentas. O arquiteto partilhou pequenas histórias, desenhou, mostrou plantas, maquetes, recordou-se de episódios que o fizeram rir. Sempre com humor e a tal gentileza. Confessou-me que, preferencialmente, as conversas que marca com jornalistas são próximas da hora do almoço. Eu percebi imediatamente o que me dizia, por ter pouco tempo.O tempo é-lhe essencial e eu ali estava, a roubar-lhe tardes inteiras. Fez-me prometer que não o obrigaria a muitas sessões, eu prometi e pedi sempre mais, ele nunca recusou”, lemos.
E depois lemoso Siza, que gostava de ensinar, que se debate contra a “falta de memória ou ignorância histórica” e a “incapacidade de reagir” às abominações do presente, que se aborrece ao pensar na morte, embora nao haja escapatória; que da infância retém que foi feliz, “na rua, com os amigos, com os vizinhos”; que queria ser escultor, mas a pedido do pai ‘guinou’ para a arquitetura – e adorou.“Creio que sou um arquiteto que se constrói e se vai construindo”, reflete, depois de afirmar: “O contexto em que se trabalha mudou tudo. Hoje é tudo rápido, exceto a aprovação de um projeto. É tudo tecnológico. Está certo que assim seja, mas é preciso tempo para pensar. Se não pensarmos não podemos melhorar, não podemos inventar melhores soluções.”Em“Pensar como um Filósofo”, saído pela Gradiva,Julian Bagginiaponta para a necessidade de “pensar melhor” nos nossos dias, em que a irracionalidade parece ter tomado conta do quotidiano. Osfilósofos,“especialistas em pensamento sólido há milénios”, podem dar um contributo. Mas o fundador da revista inglesa “The Philosophers’ Magazine” e investigador convidado na Universidade de Leeds, faz questão dedistinguir entre destreza lógica e “atitude”, isto é, aquilo que distingue a mera razão do pensamento. Diz ele: “Os estudantes de filosofia aprendem as regras da dedução lógica, listas de falácias a evitar, explicações da diferença entre o raciocínio indutivo e abdutivo, e por aí adiante. Tudo isso é importante, mas é insuficiente. É como conduzir. (…) A diferença entre os bons e os maus condutores não é principalmente uma questão de princípios e técnicas. É a atitude que têm para a sua condução que é essencial. (…)Ter as atitudes certas é o fator X da própria filosofia – chamemos-lhe o fator F. É o que eleva os melhores filósofos acima daqueles que possuem toda a destreza lógica, mas carecem de discernimento.”
Falávamos de feridas. Baggiani põe o dedo numa. Porque há momentos em que mesmo os melhores filósofos, quando retirados da sua esfera de conhecimento, podem não ser exemplos a seguir. Já dizia o biógrafo de Bertrand Russell, Ray Monk, que muito do trabalho daquele fora da filosofia “é simplesmente disparatado, irrefletido, escrito descuidadamente”.Portanto, pensar – raciocinar - como o faria um filósofo, sim; pensar o que um filósofo pensaria, não.
FICÇÃO“Clareiras” de Iris Wolf (D. Quixote)Romance finalista do Prémio do Livro Alemão em 2025, lemos: “Entrar numa floresta era como ir a uma igreja. Perdia-se a noção do tempo, alterava-se a perceção do lugar a que se pertencia. Estar na floresta era estar dentro, tudo o resto era fora.”“Soldados de Salamina”, de Javier Cercas (Porto Editora)Quarto romance desteautor espanhol, publicado em 2001, agora reeditado por cá, sobre o duro legado da Guerra Civil, e que o japonês Kenzaburo Oé qualificou de “obra-prima”.“À Espera de um Lugar Sentado”, de Francisco Guimarães (Glaciar)Um comentador desportivo a escrever poesia? Por que não? Vejamos: “reaprendi coisas tão simples.
a tropeçar nas lajes soltas
a comer arroz branco como se fosse de lavagante
a arrancar as crostas, sabendo eu
que elas nascem outra vez,”
NÃO-FICÇÃO“À Flor da Língua”, de Gregório Duvivier (Tinta-da-China)Livro que tem como ponto de partida o espectáculo “O Céu da Língua”, e que nos leva com ele pelo mar de perplexidades que as palavras despertam.“Uma História da Literatura Portuguesa”, de Fernando Pessoa (Penguin Clássicos)Projeto nascido de uma ideia tida pelo poeta em Durban e que o ocupou até ao fim da vida, trata-se não só de uma antologia dos principais autores portugueses como de uma teoria da arte, da estética e da literatura.“A Maldição de Golias”, de Luke Kemp (Bertrand)De um investigador do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge, um longo e interessante ensaio que propõe uma releitura da história humana através do colapso das sociedades.E por hoje é tudo. Se tiver sugestões ou comentários, envie paralleiderfarb@expresso.impresa.pt
Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail:LLeiderfarb@expresso.impresa.pt
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