Portugal tem piores resultados de saúde da OCDE, segundo estudo PaRIS. Fragilidades em coordenação de cuidados, doenças crónicas elevadas, desigualdades regionais e sociais. Meia população com doenças múltiplas, confiança no SNS baixa. Saúde: Portugal fica abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores no maior inquérito internacional aos utentes Likely publishing date: 2026-04-16 Saúde: Portugal fica abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores no maior inquérito internacional aos utentes Estudo PaRIS mostra fragilidades persistentes nos resultados em saúde, na coordenação dos cuidados e na resposta aos doentes crónicos, com desigualdades acentuadas entre grupos sociais e regiões. Mais de 80% das pessoas com 45 ou mais anos reportam pelo menos uma doença crónica, e mais de metade vive com várias Portugal tem valores inferiores à média internacional em quase todos os indicadores de resultados em saúde e as diferenças são mais acentuadas nos grupos mais vulneráveis, conclui um estudo divulgado esta quinta-feira. OPatient Reported Indicators Surveys(PaRIS), o maior inquérito internacional aplicado a utilizadores de serviços de saúde, revela que os aspetos mais negativos de Portugal se referem à perceção de saúde da população e à coordenação de cuidados. Os dados mostram para Portugal um desempenho bastante inferior à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nos vários domínios avaliados:saúde física, saúde mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral. Em todos estes indicadores, os resultados nacionais são os mais baixos, ou próximos dos mais baixos, entre os países participantes. .As diferenças face à média internacional são particularmente acentuadas nos grupos mais vulneráveis, como mulheres, pessoas com 75 ou mais anos, indivíduos com baixa escolaridade e cidadãos em situação de privação económica. O relatório é coordenado pela OCDE e, em Portugal, pela Direção‑Geral da Saúde (DGS). No plano nacional, envolveu 11.744 utentes com 45 ou mais anos e 80 unidades de cuidados de saúde primários (CSP), permitindo uma análise detalhada não só dos resultados em saúde reportados pelos próprios cidadãos, mas também da sua experiência no contacto com o sistema. Apesar do diagnóstico negativo nos resultados, a experiência global dos utentes com os cuidados de saúde aproxima‑se, em vários aspetos, da média da OCDE. Ainda assim, persistem fragilidades estruturais relevantes, sobretudo na coordenação de cuidados, dimensão em que metade dos utentes se declara insatisfeita. A própria avaliação dos profissionais confirma o problema: cerca de metade reconhece não estar preparada para articular eficazmente com outros prestadores, dentro e fora dos cuidados primários. Os autores alertam que estas falhas ganham particular gravidade num contexto de envelhecimento da população e de aumento contínuo da prevalência de doença crónica. “Esta realidade requer políticas de inclusão, capacitação profissional e respostas diferenciadas e adaptadas para pessoas em maior vulnerabilidade”, defendem. Os dados do PaRIS mostram que menos de metade das pessoas que vivem com doença crónica em Portugal considera ter uma boa saúde geral e que quase quatro em cada 10 estão em risco de depressão clínica. As disparidades sociais atravessam todos os indicadores analisados, com piores resultados reportados por mulheres, idosos, pessoas com menor nível de escolaridade e rendimentos mais baixos. No confronto internacional, o desempenho português nos resultados em saúde continua a refletir um país mais pobre e mais desigual do que a maioria dos seus parceiros da OCDE. Apesar do acesso universal ao Serviço Nacional de Saúde, as diferenças nos resultados e nas experiências vividas pelos utentes mantêm‑se expressivas. O relatório sublinha que, embora os cuidados de saúde primários consigam tratar “todos por igual” no acesso inicial — um aspeto considerado positivo —, as fragilidades surgem ao longo do percurso assistencial, sobretudo quando os doentes necessitam de acompanhamento prolongado, articulação entre níveis de cuidados ou respostas integradas para múltiplas patologias. É neste contexto que os especialistas alertam para a urgência de adaptar o sistema às necessidades crescentes dos doentes crónicos e multimórbidos. Metade das pessoas com mais de 45 anos tem duas ou mais doenças, o que torna obsoleta uma abordagem centrada em patologias isoladas e reforça a necessidade de coordenação ao longo de todo o percurso do doente. Ligação entre cuidados primários e hospitais continua a falhar No domínio da experiência dos utentes, a coordenação surge como a dimensão mais crítica. Metade dos inquiridos declara estar insatisfeita com a forma como os cuidados são articulados entre os cuidados de saúde primários, os hospitais, os cuidados continuados e a saúde mental. Para o subdiretor‑geral da Saúde, André Peralta Santos, esta fragilidade torna‑se ainda mais evidente no contexto da recente reforma das Unidades Locais de Saúde (ULS), que integrou administrativamente hospitais e centros de saúde. “Precisamos que esta integração não seja apenas administrativa, mas funcional, ajudando na passagem dos cuidados de saúde primários para o hospital e vice‑versa”, afirma. Um dos instrumentos apontados como fundamentais para melhorar essa articulação é o Plano Individual de Cuidados (PIC), que define os objetivos de saúde de cada utente e orienta o acompanhamento ao longo do tempo. Atualmente, apenas cerca de três em cada 10 doentes crónicos têm um PIC, apesar de este ser considerado uma ferramenta-chave para alinhamento entre profissionais e níveis de cuidados. “É discutido com o médico de família, serve para negociar os objetivos de saúde e pode ser partilhado com outros médicos, incluindo hospitalares. O problema é que quase não é usado na partilha de informação com os hospitais”, explicou à Lusa o subdiretor-geral da Saúde, André Peralta Santos. A falta de um profissional especificamente responsável pela coordenação dos cuidados — um gestor de percurso do doente — e a reduzida partilha de dados entre instituições são identificadas como obstáculos estruturais à continuidade assistencial. Segundo o relatório, sem uma mudança profunda neste modelo, o sistema continuará a ser eficaz na consulta isolada, mas frágil no acompanhamento contínuo. “O SNS é bom na consulta, mas esquece‑se um pouco quando o doente sai pela porta”, resume o responsável. “Metade das pessoas com mais de 45 anos têm duas ou mais doenças. Portanto, pensar numa doença de forma espartilhada já não faz muito sentido. (...)E quem tem doença crónica precisa de um sistema que acompanha o cidadão”, insiste o responsável, acrescentando: “precisamos que esta integração de cuidados [trazida pela reforma das ULS] não seja apenas administrativa, mas que seja funcional e ajude na passagem dos cuidados de saúde primários para o hospital, e vice-versa”. Soluções: digitalização funcional e mais confiança Face a este diagnóstico, o estudo PaRIS aponta três eixos estratégicos de mudança: a transformação digital, para garantir a modernização dos canais de comunicação; a personalização da resposta assistencial, atribuindo um gestor de cuidados a cada utente e reforçando o apoio à autogestão da doença; e o reforço da confiança no sistema, o que exige a medição da experiência dos utentes e um “investimento consistente” na prevenção e na literacia em saúde. Apesar de Portugal estar “na Liga dos Campeões da Europa” no que diz respeito ao registo clínico eletrónico,defende Peralta Santos,a digitalização ainda não se traduz em serviços eficazes para o cidadão. Os canais digitais são descritos como limitados, pouco usados e, em muitos casos, desatualizados. A oferta de videoconsultas nos cuidados de saúde primários é residual, comprometendo a acessibilidade, a continuidade e a eficiência dos cuidados. Os autores alertam também para o risco de a transformação digital agravar desigualdades se não for acompanhada de capacitação dos utentes e da manutenção de canais não digitais para quem deles necessita, nomeadamente a população mais idosa. Outra dimensão considerada crítica é a confiança no sistema: apenas metade das pessoas que utilizam regularmente os serviços de saúde declara confiar muito no SNS. Para os especialistas, sem este “capital de confiança” será mais difícil garantir a identificação dos cidadãos com o sistema e assegurar a sua sustentabilidade futura. É preciso mais informatização e serviços online O relatório PaRIS recomenda quetodos os centros de saúde passem a oferecer serviços ‘online’, como a marcação de consultas e o pedido de receitas, com o objetivo de facilitar o acesso e reduzir os tempos de espera. Para isso, defende‑se a consolidação do registo eletrónico e a obrigação de todas as unidades terem páginas eletrónicas acessíveis e fáceis de utilizar. Apesar de a maioria das unidades já recorrer a sistemas informatizados para o agendamento de consultas, apenas uma parte das atividades programadas — como rastreios e envio de lembretes — está devidamente automatizada. Além disso, cerca de 30% das unidades ainda não conseguem aceder eletronicamente ao histórico clínico de novos utentes, o que pode comprometer a continuidade da prestação de cuidados. Os dados revelam ainda limitações significativas no acesso fora do horário normal: menos de metade das unidades presta cuidados antes ou depois do horário regular pelo menos uma vez por semana, e apenas uma minoria funciona ao fim de semana. No que diz respeito à articulação com os hospitais, embora as cartas de referenciação sejam uma prática generalizada, o retorno de informação por parte das especialidades hospitalares não é sistemático. Os autores defendem, por isso, mecanismos formais e sustentáveis de integração entre cuidados primários e hospitalares, especialmente para utentes com necessidades complexas e maior risco de exclusão. Doença crónica:hipertensão arterial é a mais frequente O PaRIS confirma também aelevadíssima prevalência de doença crónicaentre os utentes dos cuidados de saúde primários em Portugal: mais de 80% das pessoas com 45 ou mais anos reportam pelo menos uma doença crónica, e mais de metade vive com várias. Entre os doentes crónicos, 62% referem ter duas ou mais doenças e 31% três ou mais. A hipertensão arterial é a condição mais frequente (42%), seguida da artrose ou dores persistentes nas costas ou articulações (32%). Os problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade, surgem como a terceira situação crónica mais reportada (22%). Mais de 10% dos utentes referem ainda diabetes, doenças cardiovasculares ou cardíacas e problemas respiratórios, como asma ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC). Existem diferenças regionais relevantes: a proporção de pessoas com doença crónica é mais baixa no Norte (80%) e mais elevada noutras regiões (83% ou mais). Já a multimorbilidade é mais frequente em Lisboa e Vale do Tejo (64%) e menos no Alentejo (58%). Por tipo de unidade, a prevalência de doença crónica é semelhante nas Unidades de Cuidados de Saúde Primários e nas USF modelo A (83%), sendo ligeiramente inferior nas USF modelo B (81%), que apresentam melhores resultados nalguns indicadores. O relatório sugere que os incentivos associados a este modelo podem ter um papel relevante na melhoria dos resultados em saúde, recomendando que indicadores de experiência e resultados reportados pelos utentes sejam integrados nos mecanismos de contratualização. Marco Aurélio Mendes: “Tive malária muito grave: estive três meses no hospital, perdi 18 kg, cabelo, audição e massa muscular. Só fiquei a 100% dois anos depois” Planeamento familiar: 50 anos depois, os desafios passam pelo acesso e literacia “Não é não”, mas Cristina Ferreira tem de saber que consentimento é quando há um “sim” Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail:clubeexpresso@expresso.impresa.pt Faça login e junte-se ao debate Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate “O imposto sobre bebidas açucaradas reduziu o consumo em 46%”: Miguel Arriaga fala sobre saúde, prevenção e políticas públicas “Qualquer contabilista serve desde que saiba subtrair”: ex-ministro critica nomeação na Saúde e fala em Governo “a raspar o fundo do tacho” Governo vai pagar mais por exames do SNS feitos no privado Pontapé de saída para novos títulos encarnados: vale a pena investir nas obrigações do Benfica? Portugal não tem planos regionais de ação climática e um terço dos municípios está em incumprimento da lei Autor de cocktail molotov era militante do PS desde 2024 e criou app para identificar casas devolutas Morreu Kris Kopke, companheira de Armando Gama nos Sarabanda e revelação pop no início dos anos 80 portugueses A Artemis II foi filmada em estúdio EUA afirmam que as negociações em curso “são produtivas”, mas negam ter pedido a extensão do cessar-fogo Portugal tem das melhores reformas face aos salários, mas podem cair para metade Hungria de Magyar mantém energia russa e rejeita “via rápida” para a Ucrânia na UE Seguro nomeia primeira mulher para representante da República nos Açores “Escolha existencial”: Arménia afasta-se da Rússia, mas Moscovo estabelece “linhas vermelhas” Autoridades identificam pela primeira vez Rússia, China, Coreia do Norte e Irão como principais ameaças à segurança nacional Casas tremeram e o medo instalou-se: piloto é investigado após desviar rota de voo Alívio passageiro: combustíveis preparam nova subida já na próxima semana "É um luxo": perda de poder de compra leva portugueses a cortar no café e pequeno-almoço fora de casa O seu avô era nazi? Agora é possível descobrir com uma simples pesquisa online Cidadãos estrangeiros estão a conseguir o "passaporte dourado" em Portugal com doações à Cultura Pilotos inconscientes? Avião voa duas horas em círculos antes de se despenhar AIMA reconhece "erro" e cancela ordem de expulsão de menina de 9 anos que vive em Portugal com os pais UGT quer que trabalhadores com filhos pequenos possam trabalhar em jornada contínua SaúdeSaúde: Portugal fica abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores no maior inquérito internacional aos utentesAgência LusaExpresso Consulta Aberta“O imposto sobre bebidas açucaradas reduziu o consumo em 46%”: Miguel Arriaga fala sobre saúde, prevenção e políticas públicasMargarida Graça SantosJoão RibeiroNuno Fox Governo“Qualquer contabilista serve desde que saiba subtrair”: ex-ministro critica nomeação na Saúde e fala em Governo “a raspar o fundo do tacho”André Manuel Correia SaúdeGoverno vai pagar mais por exames do SNS feitos no privadoVera Lúcia Arreigoso DescodificadorPontapé de saída para novos títulos encarnados: vale a pena investir nas obrigações do Benfica?Miguel Prado SociedadePortugal não tem planos regionais de ação climática e um terço dos municípios está em incumprimento da leiCarla Tomás SegurançaAutor de cocktail molotov era militante do PS desde 2024 e criou app para identificar casas devolutasHugo FrancoRita FerreiraLiliana Valente Palavras CruzadasPalavras Cruzadas nº 1455Atlântico Press BlitzMorreu Kris Kopke, companheira de Armando Gama nos Sarabanda e revelação pop no início dos anos 80 portugueses OpiniãoA Artemis II foi filmada em estúdio Conflito no Médio OrienteEUA afirmam que as negociações em curso “são produtivas”, mas negam ter pedido a extensão do cessar-fogo FisgaPortugal tem das melhores reformas face aos salários, mas podem cair para metade HungriaHungria de Magyar mantém energia russa e rejeita “via rápida” para a Ucrânia na UE Presidência da RepúblicaSeguro nomeia primeira mulher para representante da República nos Açores Europa“Escolha existencial”: Arménia afasta-se da Rússia, mas Moscovo estabelece “linhas vermelhas” SegurançaAutoridades identificam pela primeira vez Rússia, China, Coreia do Norte e Irão como principais ameaças à segurança nacional MundoCasas tremeram e o medo instalou-se: piloto é investigado após desviar rota de voo CombustíveisAlívio passageiro: combustíveis preparam nova subida já na próxima semana Economia"É um luxo": perda de poder de compra leva portugueses a cortar no café e pequeno-almoço fora de casa MundoO seu avô era nazi? Agora é possível descobrir com uma simples pesquisa online Vistos GoldCidadãos estrangeiros estão a conseguir o "passaporte dourado" em Portugal com doações à Cultura MundoPilotos inconscientes? Avião voa duas horas em círculos antes de se despenhar PaísAIMA reconhece "erro" e cancela ordem de expulsão de menina de 9 anos que vive em Portugal com os pais PaísUGT quer que trabalhadores com filhos pequenos possam trabalhar em jornada contínua --- Source: https://expresso.pt/sociedade/saude/2026-04-16-saude-portugal-fica-abaixo-da-media-da-ocde-em-quase-todos-os-indicadores-no-maior-inquerito-internacional-aos-utentes-4bb51739#comentarios sdDatePublished: 2026-04-16T10:02:00Z Topics: public health, healthcare policy, health care provider, disease and condition, society, newspaper Locations: Iran, North Korea, Hungary, Portugal, Russia, Armenia, Açores, United States, China