Portugal inicia missão comercial na Argentina favorecida por Milei e acordo UE-Mercosul, mas enfrenta atraso, falta de voo direto, e ausência de acordo de dupla tributação, limitando investimentos portugueses.
Portugal lança-se ao mercado argentino impulsionado pela abertura comercial de Milei e pelo acordo UE-Mercosul - Expresso
Portugal lança-se ao mercado argentino impulsionado pela abertura comercial de Milei e pelo acordo UE-Mercosul
Portugal começa a posicionar-se na Argentina em desvantagem face aos principais países concorrentes devido à demora do Governo português, à falta de um acordo para evitar a dupla tributação, à ausência de uma conexão aérea direta entre Lisboa e Buenos Aires e ao menor peso de uma missão comercial que nesta semana levou o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, a Buenos Aires, quando inicialmente estava prevista para ser liderada pelo ministro Manuel Castro Almeida
A duas semanas da entrada em vigor do Acordo Provisório de Comércio entre a União Europeia e o Mercosule mais dois anos depois da chegada do Presidente Javier Milei ao Governo,uma missão comercial portuguesa liderada pelo secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, começou a explorar o terreno argentino para iniciar ou para ampliar exportações e investimentos portugueses.
“Portugal pretende potenciar este relacionamento com a abertura a novos investimentos e a trocas comerciais. Estamos perante um quadro de oportunidades reais, sustentadas e mutuamente vantajosas, que importa transformar em projetos concretos, investimento produtivo e cooperação económica reforçada entre Portugal e Argentina”, disse João Rui Ferreira na abertura do Fórum Económico “Oportunidades de Negócios entre Portugal e Argentina”.
“A entrada em vigor do Acordo UE-Mercosul abre mais espaço para a expansão do comércio e do investimento entre ambos os países”, sublinhou o secretário de Estado.
“O acordo Mercosul-União Europeia reconfigura um novo cenário. No caso da Argentina, estamos a seguir muitos dos passos que Portugal seguiu nas últimas duas décadas não apenas em ordenar a sua macroeconomia, mas em criar condições concretas para atrair investimentos e para ampliar a sua integração económica”, apontou o secretário argentino das Relações Económicas Internacionais, Fernando Brun.
A visita do Secretário de Estado português durou dois dias até a noite desta terça-feira. Foi acompanhada por uma missão empresarial portuguesa.
Embora a Argentina seja o segundo maior mercado do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), a presença portuguesa no país é limitada em boa parte devido à prioridade dada ao vizinho Brasil, mas também ao protecionismo argentino que começou a ser revertido em dezembro de 2023 com a chegada do Presidente Javier Milei ao poder.
Apenas 16 empresas portuguesas estão presentes na Argentina com investimento direto que aumentou 54% em 2025 face ao ano anterior, totalizando 31 milhões de euros. Na via contrária, o investimento argentino em Portugal aumentou 108% no mesmo período, chegando a 12,7 milhões de euros.
No entanto, Portugal chega à Argentina com atraso: mais de dois anos depois da abertura iniciada pelo governo argentino e a duas semanas da entrada em vigor do acordo provisório entre os dois blocos. Essa demora foi admitida numa comunicação do Gabinete Ministerial.
“A deslocação do Secretário de Estado da Economia à Argentina, acompanhada por uma delegação empresarial portuguesa, assume-se como uma missão exploratória estratégica, num momento em que o país atravessa uma fase de profunda transformação económica. Este contexto cria oportunidades relevantes para empresas estrangeiras”, destaca o texto elaborado pelo Ministério da Economia e da Coesão Territorial.
E reconhece: “No entanto, importa sublinhar que outros países — europeus e também a China — já se encontram ativamente posicionados, o que reforça a necessidade de uma abordagem proativa por parte das empresas portuguesas, sob pena de perda de oportunidades em setores estratégicos”.
Mas a ‘abordagem proativa” para recuperar o terreno perante os demais países europeus e a China começou um escalão abaixo do previsto inicialmente. A missão comercial perdeu a projeção política, na semana passada, ao ter a liderança do ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, trocada pela do secretário João Rui Ferreira. A Embaixada de Portugal na Argentina chegou a emitir os convites com nome do ministro.
A esse atraso que ameaça a perda de oportunidades, soma-se a falta de uma ligação aérea entre Lisboa e Buenos Aires, existente entre a capital argentina e as principais capitais europeias.
“Precisamos de acordos de serviços aéreos porque estamos a falar de melhores conexões, melhor capacidade de porão para os nossos produtos, melhor capacidade de comunicação, de conectividade para os nossos serviços”, ressaltou o secretário argentino Fernando Brun.
Mas a principal desvantagem para Portugal é a falta de um acordo para evitar a dupla tributação com a Argentina. Há mais de 20 anos, Portugal tenta avançar com esse entendimento que permite uma proteção fiscal, a diminuição de custos e a atração de investimentos.
Desde que Milei chegou ao poder, o Parlamento argentino aprovou acordos com Turquia, China, Japão, Luxemburgo, Emirados Árabes Unidos, Áustria, França, Canadá e Países Baixos. Alemanha, Espanha, Itália, Reino Unido, Brasil, México, Chile e Uruguai já tinham esse acordo. Portugal nem conseguiu fechar a negociação.
A missão exploratória portuguesa acontece num momento em que o modelo económico do Governo Milei dá novos sinais de estagnação e de esgotamento. O país vive uma crise no mercado de trabalho e nos salários com constantes perdas do poder de compra.
Retirados os quatro setores que fazem hoje a economia argentina crescer - energia, minérios, agropecuária e intermediação financeira - devido às elevadas taxas de juros, setores que produzem poucos empregos, o país vive uma recessão económica nos setores que mais postos de trabalho geram: indústria, comércio e construção.
Essa queda tem sido profunda. Apenas em fevereiro, a produção industrial caiu 8,7% face ao mesmo período do ano passado. No primeiro bimestre do ano, a queda é de 6%.
A indústria na Argentina trabalha com quase metade da sua capacidade (53,6%). As quedas mais dramáticas acontecem em máquinas e equipamentos (-24,6%), no setor automotivo (-24%), nos têxteis (22,6%). Os aumentos em energia (refinação de petróleo e gás, +2,7%) não compensam a destruição dos setores de mão-de-obra intensiva.
Essa acelerada destruição de fontes de trabalho combina-se com salários que perdem mensalmente perante uma taxa de inflação que voltou a crescer nos últimos dez meses, passando de 1,5% em maio de 2025 a 3,4% em março de 2026.
Empresas portuguesas desbravam o terreno
A missão do secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, foi integrada por uma delegação empresarial de seis grupos portugueses e uma associação que representa mais de 120 empresas especializadas em Tecnologias de Produção, a Produtech.
“A falta de um acordo para evitar a dupla tributação entre Portugal e Argentina não impede, mas realmente limita as relações económicas entre ambos os países”, explica ao Expresso Pedro Bravo, gestor de projetos de internacionalização do Pólo das Tecnologias de Produção (Produtech).
“As empresas portuguesas despertaram um pouco tarde para a necessidade de alargar os seus horizontes a outros mercados como o argentino, no qual outros países já se posicionaram. As empresas nacionais estavam muito enfocadas no mercado europeu. Por outro lado, havia algumas incógnitas quanto ao quadro regulatório e tarifário, algo que mudou com o acordo da União Europeia com o Mercosul”, frisa.
“Essas ações comerciais apontam ao médio e ao longo prazo. Viemos com esta iniciativa do governo português, embora já estivesse no nosso mapa vir à Argentina em 2027 e 2028”, indica.
A Produtech é uma rede colaborativa que identifica oportunidades de negócio e facilita a internacionalização de pequenas e médias empresas, agindo como um enlace entre as firmas e o mercado.
“Vemos muito boas oportunidades, por exemplo, nas áreas da logística e da interlogística da Argentina”, prevê.
Edgardo López, diretor de produto e de estratégia de mercado da Enline, não esperou a missão do governo português. Chegou no ano passado, apresentou ofertas a transmissoras e distribuidoras de energia por mais de dois milhões de euros a potenciais clientes e está à espera dos primeiros contratos.
“Este é um mercado emergente com muito potencial. Desses dois milhões, o objetivo é fechar, pelo menos, um contrato de 500 mil neste ano. A partir disso, apontamos aos cinco milhões de faturação até 2030”, calcula López ao Expresso.
A Enline dedica-se às réplicas de ativos energéticos que simulam e preveem antecipadamente problemas nas redes elétricas. Usa Inteligência Artificial e modelos físicos para identificar falhas mecânicas, melhorar a eficiência das redes e eliminar roubos de energia, um dos principais problemas na América Latina. Tudo isso teria muito mais projeção de negócios se Portugal tivesse conseguido um acordo para evitar a dupla tributação com a Argentina.
“A falta desse acordo impacta de duas formas: por um lado, talentos argentinos poderiam desenvolver-se e receber remuneração de Portugal. E Portugal poderia vender mais, facilitando as compras de solução digital por parte da Argentina”, observa.
A Efacec chegou ao país em 1998 e, desde então, atravessou todas as crises e colapsos da economia argentina. Em 2014, devido às restrições ao movimento de capitais e de acesso ao mercado cambial, a empresa fechou um centro de operações, demitindo 120 funcionários. Passou a uma estrutura mínima de apenas cinco pessoas num centro de instalação e de montagem, contratando temporariamente cada vez que precisa montar um novo equipamento de média tensão. Hoje, importa os equipamentos básicos sobre os quais acrescenta valor de engenharia para cada cliente, geralmente distribuidoras de energia.
“No ano passado, tivemos uma faturação de seis milhões de euros, atendendo os países hispânicos da região. Metade foi na Argentina. Neste ano, queremos chegar a oito milhões de euros, metade na Argentina. O negócio tem crescido”, projeta ao Expresso, Daniel Michalek, country manager da Efacec na Argentina.
A ausência de um acordo para evitar a dupla tributação permitiria aumentar essa faturação.
“Esse acordo é importante. A Argentina tem com Espanha, com França. É estranho que não tenha com Portugal. Já o acordo UE-Mercosul vai permitir aumentarmos a nossa competitividade porque o custo aduaneiro do nosso produto, que hoje chega a 28%, passará a zero”, diz.
Quanto à situação argentina, com queda dos setores mais produtivos da economia, afetando o consumo pela via da perda do poder aquisitivo, a Efacec já sente uma queda na faturação.
“Nós estamos na rede entre o gerador de energia e o usuário com um produto de tensão média para as distribuidoras de energia. Menos produção industrial, portanto, menos consumo. Para cada ponto a menos de procura de energia, a nossa faturação diminui entre 5% e 10%. As distribuidoras calculam uma queda de 20% na procura para todo o mercado do qual a Efacec é uma parte. A esta altura, já estamos a faturar 5% a menos”, conclui Daniel Michalek.
Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail:clubeexpresso@expresso.impresa.pt
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