Transformação digital do Fundão destaca necessidade de repensar modelos de trabalho e habitação. Digitalização trouxe inovação, atraiu talento, impactou agricultura, turismo e educação. Risco climático exige abordagens locais; inteligência artificial e energia digital emergem como tendências-chave. “É necessário repensar os modelos de trabalho e habitação” - Expresso “É necessário repensar os modelos de trabalho e habitação” Paulo Fernandes liderou a transformação digital no Fundão e é hoje responsável pela recuperação das zonas afetadas pela tempestade Kristin. É o primeiro convidado numa série de entrevistas a líderes digitais Na última década, o Fundão evoluiu de um território com pouca expressão tecnológica - com apenas três engenheiros informáticos - para um polo digital com mais de 1200 profissionais qualificados, numa cidade de 12 mil habitantes. Em 2025, Paulo Fernandes foi nomeado Best Digital Leader na iniciativa Portugal Digital Awards. Nesta entrevista, que é parte de um projeto do Expresso apoiado pela Axians, o hoje responsável pela estrutura de missão para as zonas afetadas pela depressão Kristin, reflecte sobre os vários desafios tecnológicos do país. Paulo Fernandes,a transformação digital é o caminho? Sim, acho que temos aí um dos grandes motores hoje do que é o desenvolvimento, do que é qualidade de vida, do que é ao fim ao cabo a sociedade. Gosto de pensar que podemos muitas vezes falar emsmart cities, mas que podemos também falar de territórios inteligentes, e os territórios numa perspetiva mais ampla, tendo em vista aquilo que é a realidade concreta do nosso país, com esta assimetria entre as áreas mais metropolitanas e aquilo que são as áreas mais rurais. Mas também gosto muito de falar daquilo que são, ao fim ao cabo, comunidades inteligentes. Ou seja, pensando que a alavanca digital pode, nestas três vertentes da cidade, dos territórios, mas ao fim e ao cabo também das pessoas, ser de facto aquilo que faz totalmente a diferença, no que é hoje um salto para um desenvolvimento mais sustentável e mais justo no nosso país. E esses objetivos foram conseguidos? Que Fundão é que agora temos? Temos um Fundão que obviamente atraiu muitos perfis digitais, muito talento digital. Quando começámos, às vezes até me envergonho, eram três engenheiros informáticos que viviam na cidade do Fundão. E quando saí, eram seguramente mais de mil e duzentos. A cidade tem doze mil pessoas em muitas vertentes distintas. Inicialmente, aumentou também para empresas de grande, de maior dimensão, que se atraíram para aquele território porque podiam atrair talento, mas depois também contaminou positivamente sectores tradicionais, que vão desde a vertente agrícola, sendo nós um território tão conhecido pela famosa cereja, mas também a vertente do turismo, a vertente da metalomecânica, as áreas ao fim ao cabo também ligadas à inovação social. Ou seja, a vertente inovação passou a ser o mote central para aquilo que era a nossa estratégia de desenvolvimento. E a outra vertente que acho que é também muito interessante é que também levámos para a comunidade os nossos projetos educativos na área digital, com todas as crianças a programar a partir dos seis anos ou todas a desenvolverem propósitos em inteligência artificial a partir dos oito. Também se tornaram casos de estudo a nível, não só em Portugal, mas também no contexto europeu. Por isso ajudámos a fazer uma transição, de um território, vamos chamar de menor expressão do ponto de vista da inovação, para um território hoje muito no radar de todas as áreas ligadas à inovação, nomeadamente tendo um mote no digital, mas também mostrámos como, no concreto, a partir da educação, por exemplo, se pode fazer a diferença com o digital. É esse impacto na vida real, por assim dizer, que leva as pessoas atrás? Acho que no cerne está sempre a questão das pessoas. Mas também, sendo obviamente mais pragmático, vejo hoje questões do ponto de vista da qualidade de vida, o custo da qualidade de vida. A questão de criar valor com a comunidade, a questão de se sentir parte de um ecossistema, mas já não só o lugar comum, mas também ser co-criador desse mesmo ecossistema, acrescentar todos os dias. E são modelos de governança, de co-criação, modelos muito mais também de poder partilhado entre o cidadão, as entidades locais, as entidades obviamente governamentais, também um pilar todo do sistema científico e tecnológico que começou a ali estar com centros de competência.O primeiro, até parece agora quase uma anedota, mas há dez anos o primeiro centro de competências que desenvolvemos, foi um centro de teste de software, coisa que hoje está muito fora com o que foi a revolução, vamos chamar mais recente, da inteligência artificial, não é? Mas são todas abordagens de laboratórios, de laboratórios de proximidade, de interface, que ajudaram bastante a que as pessoas se sintam bem, que pertencem e que acrescentam valor. Na dinâmica cívica, na dinâmica comunitária e obviamente na dinâmica empreendedora ou empresarial. Como é que vê o resto do país, com essa experiência que tem? Acho que contribuímos para a alteração um pouco do paradigma do poder local. O poder local teve o seu momento de afirmação democrático maravilhoso, teve o seu momento de infraestruturação do país fundamental e acho que agora entra noutros contextos, os tais, os contextos do paradigma da criação de valor, valor social, valor cultural, valor económico, valor ambiental, valor público. Ou seja, as políticas orientadas mais para um impacto e tendo obviamente o paradigma digital a facilitar muito esse processo. Acho que demos o contributo para que hoje muitos mais municípios tenham uma agenda de inovação digital dentro daquilo que é a sua estratégia de desenvolvimento. Alguns a tomaram também, como diria, como um referencial maior. E, acima de tudo, isso também ajudou a uma linguagem universal. Se pensarmos bem, as linguagens universais ajudam-nos a estar mais no mundo. Isso também ajudou muito a fazer a ligação entre a vertente local e a vertente global, a fomentar novas formas de pensar a coesão do país, onde os fatores não precisam estar tão próximos. O mundo digital permite, de facto, que as pessoas possam trabalhar à distância, possam criar à distância. Isso obviamente facilita muito a vida.É olhar para o país como um todo e também acrescentar valor. Ou seja, sentimos que há muitos municípios que começaram a trabalhar em rede,a olhar para o mundo,a pensar quando é que podem fazer a triangulação entre empresas, sistema científico e território também na parte digital, sendo que alguns foram criando até os seus ecossistemas digitais com as suas incubadoras, aceleradoras, espaço de co-living, cowork, ou seja, criar um conjunto de valências e um conjunto de serviços de proximidade que são verdadeiros ecossistemas. Portanto, é otimista.Portugal está no bom caminho? Acho que Portugal no digital está melhor do que noutras áreas. A questão é muitas vezes, e se calhar esse é o meu grão de areia neste processo, provavelmente talvez até o que tenha levado a tanta simpatia ao terem-me escolhido como líder digital do ano. Acho que a questão é como é que nós transferimos esse valor de tantas empresas que escolheram Portugal para se envolver, tantasstartupsque felizmente vingaram e algumas transformaram-se em casos internacionais, tanta empresa e indústria que se transformou num caso relevante.Tudo isso é muito importante e tem acontecido no nosso país, mas talvez a questão central é como é que isto se transfere, esse valor se distribui também pela comunidade e como é que essa comunidade dá um salto também de capacitação, dá um salto de igualdade de oportunidades, a partir também do digital. Tendo vindo de um território de muito baixa densidade onde tudo era improvável, se calhar também sirvo um bocadinho, não sei se de exemplo, mas talvez ajude a que o Fundão seja um bocadinho um farol que mostra que é possível e que por isso tambémdá esse sinal mais positivo do país. E consegue antecipar a tendência já para um futuro mais próximo? Obviamente a inteligência artificial é uma delas, não é? Mas o que que se pode esperar mais? A questão da inteligência artificial é uma delas na perspectiva de aplicação a cada vez mais coisas. Acho que há, olhando para o digital, olhando, por exemplo, na questão do investimento, parece-me que é óbvio que as ligações vão ser ainda mais reforçadas entre a vertente de energia e a vertente do digital. E que o país tem que preparar-se ainda melhor para isso. E o segundo aspeto é que vão aparecer novas abordagensda construção de ecossistema. Falo muito disto porque geralmente olhamos as tendências na perspetiva da linguagem ou perspetiva de uma aplicação. Gosto muito de ver o digital da perspetiva também muito pragmática do que é as oportunidades que traz para o nosso país. Fui muitos anos autarca, é difícil fugir um bocadinho a essa abordagem um bocadinho mais de oportunidade. E vejo que é necessário repensar, por exemplo, o modelodo trabalho e o modelo da habitação. O trabalho, a habitação, os centros de transferência de conhecimento têm que estar muito mais interligados e têm que aparecer projetos mais integrados associados a essa questão. E depois vejo, obviamente, e se calhar fazendo agora uma ponte com algo que está muito na ordem do dia, vejo uma necessidade muito maior de passarmos de uma abordagem desmart citiespara uma abordagem muito mais territorializada, exatamente por questão de riscos, nomeadamente riscos climáticos. É muito importante que essa vertente que está tão aí, também o digital se foque, porque aí há enormes oportunidades, há enormes novas fileiras a explorar, novas vertentes de criação de valor como, por exemplo, os circuitos mais curtos, as componentes da rastreabilidade dos produtos, mas também obviamente uma questão fundamental que é sermos preventivos relativamente àquilo que nos trazem estes acontecimentos tão fortes e tão extremos que estamos a sofrer. Este projeto é apoiado por patrocinadores, sendo todo o conteúdo criado, editado e produzido pelo Expresso (verCódigo de Conduta), sem interferência externa. Portugal Digital Awards. Já não basta digitalizar, é preciso provar valor Portugal Digital Awards 2026: candidaturas abertas para edição que marca uma década de distinções Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail:clubeexpresso@expresso.impresa.pt Faça login e junte-se ao debate Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate Homens continuam pouco envolvidos no planeamento familiar Viticultura regenerativa: a importância de conhecer a filosofia agrícola da vinha Será que precisamos de tomar suplementos alimentares? 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