Anthropic alerta sobre IA demasiado poderosa, retém novo modelo devido a riscos cibernéticos; cessar-fogo frágil entre EUA, Israel e Irão, exclusão do Líbano, tensão no Estreito de Ormuz, negociações incertas.
O que o ovo tem dentro - Expresso Likely publishing date: 2026-04-09
O que o ovo tem dentro
Esperemos que este seja um bom dia,Estamos a meio do caminho, um lugar desconfortável, porque se segue a uma decisão que já foi tomada e antecede outra que ainda não se conhece. Nada é estável. Estamos frágeis, como um ovo, cheios de algo que ainda não sabemos bem o que será. Perguntamo-nos se, ao eclodir, veremos sair do ovo uma serpente que rasteja ou uma ave que voa.Na madrugada desta quarta-feira, depois dedez horas de suspense, em que o mundo se deixou estar pendurado a ver insólitas contagens decrescentes nos canais noticiosos para o fim de um prazo que nos poderia levar a assistir em direto a um desastre civilizacional, a 90 minutos do fim do tique-taque do relógio do medo, foi-nos anunciado que os Estados Unidos, Israel e o Irão tinham aceite suspender as hostilidades durante duas semanas.Um anúncio também ele frágil, afinal Beirute continuou a ser alvo de bombardeamentos israelitas que terão matado cerca de 300 pessoas. “O cessar-fogo não inclui o Líbano”, avisou logo Benjamin Netanyahu. Ouvimos calados. O mundo nada fez quando, a meio da tarde de Lisboa, o Irão suspendeu a passagem de petroleiros pelo estreito de Ormuz e ameaçouabandonar o cessar‑fogose Israel continuar os ataques ao Líbano.As negociações agendadas para este sábado estão em risco e o preço do petróleo já voltou a subir.E como se a transmissão da série de televisão com maior audiência do planeta tivesse sido interrompida por 15 dias, continuamos a querer saber quem vai morrer e quem vai matar. Logo se verá se voltamos à destruição ou se passamos a episódios menos interessantes, em que se fala de paz e de normalização da economia, assuntos menos excitantes, mas que nos deveriam motivar muito mais do que discutir quem venceu uma contenda em que todos parecem ter perdido, inclusive nós.Para já, curioso é o padrão que começa a desenhar-se. Depois de a Venezuela perder Nicolás Maduro, mas manter a generalidade da sua equipa no poder, agora Donald Trump vem falar de“estreita colaboração”entre os Estados Unidos e o Irão. Afinal, a civilização que poderia ter desaparecido passou a algo parecido com um parceiro. Há “conversações construtivas” entre os norte-americanos e dinamarqueses sobre aGronelândia, Cuba está na calha e não será ali que os homens de Mar-a-Lago vão deixar de entrar.Falta a Ucrânia, mas ontem mesmo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi bastante claro: “Esperamos que, num futuro próximo, [os EUA] tenham mais tempo e maiores oportunidades para se reunirem num formato trilateral", referindo-se às negociações realizadas entre aRússia, a Ucrânia e os Estados Unidos. TambémVolodymyr Zelenskydeu sinal nas suas redes sociais: “A determinação americana demonstrada no Médio Oriente ao alcançar este cessar-fogo deve agora servir de exemplo para restaurar a paz na Europa e forçar a Rússia a aceitar uma trégua semelhante nas nossas fronteiras.” Mercebe-se que tudo tem de mudar para poder ficar igual, como dizia Don Fabrizio em “O Leopardo”, de Tomasi di Lampedusa. Parece que foi ontem.No domingo, o frágil ovo vai voltar a baloiçar com as eleições na Hungria. A nossa enviada, Ana França, tem dado nota das idiossincrasias destas legislativas, que vão influenciar o destino da Europa e da guerra na Ucrânia. Até assistiu aocomícioque reuniu Viktor Orbán, primeiro-ministro há dezasseis anos, e o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance.Longe das manchetes bélicas e eleitorais, outra notícia estremece também o nosso ovo prenhe de futuro. A Anthropic — empresa criada pelo polémicoDario Amodeie que se recusou a assinar um acordo com o Pentágono — avança que ainda não pode lançar a última versão do Claude, o seu modelo de IA, por estar preocupada com a possibilidade deste ser usado para atacar redes de computadores. Mais, alerta que esta tecnologia “é demasiado poderosa para ser disponibilizada ao público”.Em contrapartida, a Anthropic lançaClaude Mythos Preview, mas apenas para um consórcio de 40 empresas de tecnologia, incluindo Google, Nvidia, Cisco, Apple, Amazon e Microsoft, o que, segundo a empresa, representa uma “mudança radical, com implicações de extrema importância para a segurança cibernética e a segurança nacional dos Estados Unidos”.Thomas Friedmanpreferiu escrever no “New York Times” sobre a decisão da Anthropic do que sobre o cessar-fogo no Médio Oriente. Reflete sobre o facto de a Anthropic ter anunciado que encontrou vulnerabilidades críticas em todos os principais sistemas operativos e navegadores da Web, muitos dos quais utilizados em redes elétricas, sistemas de abastecimento de água, sistemas de reservas de companhias aéreas, por militares e em hospitais de todo o mundo. O que saírá deste ovo?
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