Filme ‘O Barqueiro’ de Simão Cayatte retrata comunidade tailandesa de imigrantes na apanha ilegal de amêijoa no Tejo, explorando drama social sem clichés, destacando protagonista ex-recluso invisível.
Balada da praia dos invisíveis - Expresso Likely publishing date: 2026-04-13
Balada da praia dos invisíveis
Entre o estudo de personagem e a criação de um ambiente próximo do thriller, “O Barqueiro” tem trunfos sólidos narrativos
Impressiona ver uma câmara a filmar um mal-estar português sem colocar-se em bicos de pés. Esta câmara é de Simão Cayatte, que na sua segunda longa, sucessora de “Vadio”, de 2022, encontra um Portugal dos invisíveis, neste caso o de uma comunidade tailandesa de imigrantes na apanha ilegal da amêijoa no Tejo, mais precisamente no Mar da Palha. E é impressionante porque o cineasta recusa o mais normativo do drama social, procurando uma certa perturbação, que supera a tarimba do mimetismo. Parte da proeza deve-se ao gancho do protagonista, um homem a sair da prisão, interpretado com rigor e contenção pelo fabuloso Romeu Runa – é o barqueiro do título, também ele invisível, qual Caronte entre duas margens a servir de anjo e guarda dos pescadores escravizados à espera de transporte, sem respeito pela dignidade humana.
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